Escritas... Que encantam!!!

Terça-feira, Setembro 11, 2007




Foto: Jorge Carreira.


Uvas verdes


É seu
o primeiro pensamento
desta manhã que se repete

nesta pradaria

onde simulamos um sonho
meus olhos violam o medo

e já nem é segredo...

é incêndio!



Lau Siqueira

********


Comments:

Quinta-feira, Setembro 06, 2007





DESTINO


Quem disse à estrela o caminho
Que ela há-de seguir no céu?
A fabricar o seu ninho
Como é que a ave aprendeu?
Quem diz à planta --- <> ---
E ao mudo verme que tece
Sua mortalha de seda
Os fios quem lhos enreda?

Ensinou alguém à abelha
Que no prado anda a zumbir
Se à flor branca ou à vermelha
O seu mel há-de ir pedir?

Que eras tu meu ser, querida,
Teus olhos a minha vida,
Teu amor todo o meu bem...
Ai! não mo disse ninguém.
Como a abelha corre ao prado,
Como no céu gira a estrela,
Como a todo o ente o seu fado
Por instinto se revela,
Eu no teu seio divino
Vim cumprir o meu destino...
Vim, que em ti só sei viver,
Só por ti posso morrer.

Almeida Garrett

********


Comments:

Domingo, Abril 22, 2007





A FLOR E A NÁUSEA


Preso à minha classe e a algumas roupas,
Vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?

Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.

Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

Carlos Drummond de Andrade

********


Comments:

Quinta-feira, Abril 05, 2007



"Há homens que nunca mataram e que,
no entanto, são piores que os que mataram seis pessoas"

Fyodor Mikhaylovich Dostoevsky

********


Comments:

Quinta-feira, Março 29, 2007


Irremediável

O céu estava azul (até onde a limitação
das palavras conseguia descrever).
Azul mas de uma tonalidade
extinta há milênios, um azul contagioso
substituindo as outras cores do dia

(estendido como um tapete sobre-através
dos seres e de tudo...)

Então, maravilhados com o azul fóssil
desse momento ímpar o Bem e o Mal
deram as mãos abraçaram-se longamente
e acolhidos Um no Outro continuaram
destruindo o mundo.

Wilson Guanais

********


Comments:

Quarta-feira, Março 28, 2007




"Se as paixões aconselham por vezes mais ousadamente do que a reflexão,
isso deve-se a que elas dão mais força para executar".

Shakespeare

********


Comments:

Segunda-feira, Março 26, 2007


cidade morro

(canto de édipo)

pág.33 do livro Língua.



essa cidade me atravessa da goela à nuca
fazendo sulcos profundos
o tempo me devora
ai tempo ai ai de mim
corrói-me arranca-me pedaços definhando-me
a cada instante morro morro morro
morro a toda hora agora?
não suporto mais essa cidade
sinuosamente contínua
quero-te pólis quero-te cronos
possuir-te posso? posso! posso
dar asas a essa dor íntima bor...bo...le...ta
chamar-te de bor de dor de cor
de amor amor-te
cravar no tempo ao menos a minha dor
meu incômodo por envelhecer
por olhar no espelho à cara as rugas
o cigarro apagando sempre sempre
minhas pernas doendo
o pulmão arfante
meu corpo metamorfoseando-se
quero pousar no morrro perenizar-me
explodir em gotas num rito grito de doralegria
pára tempo pára coração pára tudo!
pólis te quero pedra
cronos te quero morro

gustavo cerqueira guimarães

********


Comments:

Sábado, Março 24, 2007


Deseo!

Deseo hacer el amor contigo
en una noche de luna llena
Donde nuestras almas se encuentren
y nuestros cuerpos se deleiten

Deseo hacer el amor contigo
en una noche clara bajo el cielo
resplandeciente de estrellas
Donde nuestros cuerpos jueguen al amor
y nuestras almas se regocijen

Deseo hacer el amor contigo
en una tarde de primavera
Donde nuestros cuerpos se entreguen
sin pudor ni reservas

Deseo hacer el amor contigo
y acariciar tu piel
centímetro a centímetro
Impregnar con tu sudor mi cuerpo
y quedar exhausto,
para después dormir tranquilamente
entre tus suaves brazos

Deseo hacer el amor contigo
en una colina verde,
donde tengamos por testigo
los pájaros y las flores

Los pájaros nos darán la música
y las flores el perfume,
para con el impregnar
tu cuerpo desnudo y sensual.

Martha Humphrey

********


Comments:

Domingo, Março 18, 2007





MICHEL FUGAIN


Comments:

Sábado, Março 03, 2007


ASSOMBROS

Às vezes, pequenos grandes terremotos
ocorrem do lado esquerdo do meu peito.

Fora, não se dão conta os desatentos.

Entre a aorta e a omoplata rolam
alquebrados sentimentos.

Entre as vértebras e as costelas
há vários esmagamentos.

Os mais íntimos
já me viram remexendo escombros.
Em mim há algo imóvel e soterrado
em permanente assombro.


Affonso Romano de Sant'Anna (Lado Esquerdo do Meu Peito)

********


Comments:

Terça-feira, Fevereiro 20, 2007




(Clarice Lispector)


"Estou atrás do que fica atrás do pensamento.
Inútil querer me classificar: eu simplesmente escapulo.
Gênero não me pega mais. Além do mais, a vida é curta demais para eu ler
todo o grosso dicionário a fim de por acaso descobrir a palavra salvadora.
Entender é sempre limitado. As coisas não precisam mais fazer sentido.
Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é possível fazer sentido.
Eu não: quero é uma verdade inventada.
Porque no fundo a gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro."

********


Comments:

Sexta-feira, Fevereiro 16, 2007




SOÑANDO

Manuel María Flores


Anoche te soñaba, vida mía,
estaba solo y triste en mi aposento,
escribía... no sé qué; mas era algo
de ternura, de amor, de sentimiento.
Porque pensaba en ti. Quizás buscaba
la palabra más fiel para decirte
la infinita pasión con que te amaba.

De pronto, silenciosa,
una figura blanca y vaporosa
a mi lado llegó... Sentí en mi cuello
posarse dulcemente
un brazo cariñoso, y por mi frente
resbalar una trenza de cabello.
Sentí sobre mis labios
el puro soplo de un aliento blando,
alcé mis ojos y encontré los tuyos
que me estaban, dulcísimos, mirando.
Pero estaban tan cerca que sentía
en yo no sé que plácido desmayo
que en la luz inefable de su rayo
entraba toda tu alma hasta la mía.

Después, largo, süave
y rumoroso apenas, en mi frente
un beso melancólico imprimiste,
y con dulce sonrisa de tristeza
resbalando tu mano en mi cabeza
en voz baja, muy baja, me dijiste:
-"Me escribes y estás triste
porque me crees ausente, pobre amigo;
pero ¿no sabes ya que eternamente
aunque lejos esté, vivo contigo?"
......................................
Y al despertar de tan hermoso sueño
sentí en mi corazón plácida calma;
y me dijiste: es verdad... ¡eternamente!...
¿cómo puede jamás estar ausente
la que vive inmortal dentro del alma?

********


Comments:

Sábado, Fevereiro 03, 2007



Os Portadores de Sonhos
Gioconda Belli


Em todas as profecias está prevista a destruição do mundo.
Todas as profecias dizem que o homem criará sua própria destruição.
Porem os séculos e a vida que sempre se renovam criariam também uma geração de amantes e sonhadores; homens e mulheres que não sonharam com a destruição do mundo, e sim com a construção do mundo das mariposas e dos rouxinóis.
Desde pequeninos vinham marcados pelo amor.
Por trás de sua aparência cotidiana guardavam a ternura e o sol da meia-noite.
Suas mães os encontraram chorando por um pássaro morto e mais tarde muitos foram encontrados mortos como pássaros.
Estes seres coabitaram com mulheres translúcidas e elas ficaram prenhes de mel e de filhos reverdecidos por um inverno de carícias.
Foi assim que proliferaram no mundo os portadores de sonhos, atacados ferozmente pelos portadores de profecias que falavam de catástrofes.
Foram chamados iludidos, românticos, pensadores de utopias, disseram que suas palavras eram velhas -e de fato eram porque a memória do paraíso é antiga no coração do homem - os acumuladores de riquezas os temiam e lançavam seus exércitos contra eles, mas os portadores de sonhos faziam amor todas as noites e do seu ventre brotava a semente que não somente portava sonhos mas que os multiplicavam e os fazia correr e falar.
E assim o mundo criou de novo a sua vida da mesma forma que havia criado os que inventaram a maneira de apagar o sol.
Os portadores de sonhos sobreviveram aos climas gélidos e nos climas quentes pareciam brotar por geração espontânea.
Quem sabe as palmeiras, os céus azuis, as chuvas torrenciais tiveram a ver com isso, a verdade é que, como formiguinhas operárias estes espécimes não deixavam de sonhar e construir mundos formosos, mundo de irmãos, de homens e mulheres que se chamavam companheiros, que se ensinavam a ler uns aos outros, consolavam-se diante da morte, se curavam e se cuidavam entre si, se ajudavam na arte de querer e na defesa da felicidade.
Eram felizes em seu mundo de açúcar e de vento e de todas as partes vinha gente impregnar-se de alento e de suas claras percepções e de lá partiam os que os haviam conhecido portando sonhos, sonhando com novas profecias que falavam de tempos de mariposas e rouxinóis, onde o mundo não haveria de findar na hecatombe mas onde os cientistas desenhariam fontes, jardins, brinquedos surpreendentes para fazer mais gostosa a felicidade do homem.
São perigosos - imprimiam as grandes rotativas
São perigosos - diziam os presidentes em seus discursos
São perigosos - murmuravam os artífices da guerra
Devem ser destruídos - imprimiam as grandes rotativas
Devem ser destruídos - diziam os presidentes em seus discursos
Devem ser destruídos - murmuravam os artífices da guerra.
Os portadores de sonhos conheciam seu poder e por isso nada achavam de estranho
E sabiam também que a vida os havia criado para proteger-se da morte que as profecias anunciam.
E por isso defendiam sua vida até a morte
E por isso cultivavam os jardins de sonhos e os exportavam com grandes laços coloridos e os profetas obscuros passavam noites e dias inteiros vigiando as passagens e os caminhos procurando essas cargas perigosas que nunca conseguiram encontrar porque quem não tem olhos para sonhar não enxerga os sonhos nem de dia, nem de noite.
E no mundo sucedeu um grande tráfico de sonhos que os traficantes da morte não podiam estancar; em todas as partes há pacotes com laços de fita que só esta nova raça de homens pode ver e a semente destes sonhos não se pode detectar porque está envolta em corações vermelhos ou em amplos vestidos de maternidade onde pezinhos sonhadores sapateiam nos ventres que os carregam.
Dizem que a terra depois de os haver parido desencadeou um céu de arco-íris e soprou de fecundidade as raízes das árvores.
Nós sabemos que os vimos, Sabemos que a vida os criou para proteger-se da morte que as profecias anunciam.

Tradução: Celso Japiassu.

********


Comments:

Quinta-feira, Dezembro 21, 2006



(MEU Céu...).

Avec des si...

Text/Musik: Françoise Hardy
1970


si je vous avais moins intimidé
si vous naviguiez moins dans vos trop hautes sphères
si vous ne cachiez pas tout ce que vous sentez

moi, si j'avais été moins romantique
et si vous m'aviez moins impressionné
si nous avions osé mettre nos rêves en pratique
si nous avions osé une fois nous parler

avec des si... si... si...

si l'on s'était moins fiés aux apparences
car vous et moi vivions avec des gens
qui ne nous intéressaient pas beaucoup, je pense
mais c'était du contraire que nous faisions semblant

si nous avions moins présenté ensemble
de ce qui nous tenait le plus à coeur
mais vous êtes comme moi, et moi je vous ressemble
c'est de cette façon que nous ne faisions pas

avec des si... si... si...

en bref, si nous avions été tout autres
nous ne nous serions sans doute pas aimés
nous n'aurions pas perdu par notre propre faute
tant de temps pour un geste que nous n'avons pas fait

avec des si... si... si...

********


Comments:

Quarta-feira, Dezembro 20, 2006




Si tú me olvidas
(Pablo Neruda).


Quiero que sepas
una cosa.

Tú sabes bien cómo es esto:
si miro
la luna de cristal, la rama roja
del lento otoño en mi ventana,
si toco
junto al fuego
la impalpable ceniza
o el arrugado cuerpo de la leña,
todo todo me lleva a ti,
como si todo lo que existe,
aromas, luz, metales,
fueran pequeños barcos que navegan
hacia las islas tuyas que me aguardan.

Ahora bien,
si poco a poco dejas de quererme
dejaré de quererte poco a poco.

Si de pronto
me olvidas
no me busques,
que ya te habré olvidado.

Si consideras largo y loco
el viento de banderas
que pasa por mi vida
y te decides
a dejarme a la orilla
del corazón en que tengo raíces,
piensa
que en ese día,
a esa hora
levantaré los brazos
y saldrán mis raíces
a buscar otra tierra.

Pero
si cada día,
cada hora
sientes que a mí estás destinada
con dulzura implacable.
Si cada día sube
una flor a tus labios a buscarme,
ay amor mío, ay mía,
en mí todo ese fuego se repite,
en mí nada se apaga ni se olvida,
mi amor se nutre de tu amor, amada,
y mientras vivas estará en tus brazos
sin salir de los míos.

(Pablo Neruda).

********


Comments:

Home
Efeitos Especiais